segunda-feira, 4 de abril de 2011

Fernando Pessoa, do espiritismo à Teosofia

           O encontro com a teosofia é posterior às experiências espíritas, de que teria participado "algumas vezes, incrédulo" (segundo Gaspar Simões); "Durante os anos que vivera com a tia Anica (Ana Luísa Nogueira de Freitas) tivera a ocasião de ser industriado pela boa senhora nos segredos do espiritismo. Pelo contrário, parece que, incrédulo, quando assistia às sessões 'semi-espíritas' que por essa altura se realizavam (...), constituía um obstáculo ao bom êxito dessas sessões" - comenta o biógrafo. E há uma carta (de 24/06/1916) em que Fernando Pessoa relata à Tia Anica, carta que documenta o pensamento do então jovem de 28 anos a respeito do espiritismo: 
           
           "(...) Aí por fins de março (se não me engano) comecei a ser médium. Imagine! Eu, que (como deve recordar-se) era um elemento atrasador nas sessões semi-espíritas que fazíamos, comecei, de repente, com a escrita automática. Estava uma vez em casa de noite, (...) quando senti a vontade de, literalmente, pegar numa pena e pô-la sobre o papel. É claro que depois é que dei por o fato de que tinha tido esse impulso. (...) Nessa primeira sessão comecei por a assinatura (tão bem conhecida de mim) "Manuel Gualdino da Cunha".

           "(...) De vez em quando, umas vezes voluntariamente, outras obrigado, escrevo. Mas raras vezes são 'comunicações' compreensíveis. Certas frases percebem-se. E há sobretudo uma cousa curiosíssima - uma tendência irritante para me responder a perguntas com números; assim como há a tendência para desenhar. Não são desenhos de cousas, mas de sinais cabalísticos e maçônicos, símbolos de ocultismo e cousas assim que me pertubam um pouco. (...) Devo dizer que o pretenso espírito do tio Cunha nunca mais se manifestou pela escrita (nem de outra maneira). As comunicações atuais são, por assim dizer, anônimas e sempre que pergunto 'quem é que fala?' faz-me desenhos ou escreve-me números.

            "(...) Guardo, porém, para  o fim o detalhe mais interessante. É que estou desenvolvendo qualidades não só de médium escrevente, mas também de médium vidente. Começo a ter aquilo a que os ocultistas chamam 'a visão astral', e também a chamada 'visão etérica'. Tudo está muito em princípio, mas não admite dúvidas. É tudo, por enquanto, imperfeito e em certos momentos só, mas neste momento não existe.(...) Há momentos, por exemplo, em que tenho perfeitamente alvoradas (?) de 'visão etérica' - em que vejo a 'aura magnética' de algumas pessoas, e sobretudo, a minha ao espelho e, no escuro, irradiando-me as mãos. (...) A 'visão astral' está muito imperfeita. (...)

               "É que tudo isto não é o vulgar desenvolvimento de qualidades de médium. Já sei o bastante das ciências ocultas para reconhecer que estão sendo acordados em mim os sentidos chamados superiores para um fim qualquer que o Mestre desconhecido, que assim me vai iniciando, ao impor-me essa existência superior, me vai dar um sofrimento muito maior do que até aqui tenho tido, e aquele desgosto profundo que vem com a aquisição destas altas faculdades é acompanhado duma misteriosa sensação de isolamento e de abandono que enche de amargura até ao fundo da alma. (...) Não sei se realmente julgará que estou doido. Creio que não. Estas cousas são anormais sim, mas não anti-naturais." (...)

               Comenta o biógrafo João Gaspar Simões: "É certo que, se a fase espírita parece ter sido passageira - embora em setembro desse ano ainda confie a Cortes Rodrigues  que continua a ser vítima de "fenômenos de mediunidade' -, já o mesmo não pode dizer-se da fase ocultista. Realmente o estudo da astrologia, com tudo o mais que se prende com as ciências ocultas, se já nessa altura parece familiar ao poeta da Mensagem, ir-se-á acentuando dái para o futuro."

                Segundo João Gaspar Simões, Fernando Pessoa inclinou-se para os problemas transcendetes, após o derrame de sua mãe, em 1916: "Então se voltara para o espiritismo, primeiro estádio da revolução 'religiosa' que se ia operar na sua consciência. Mas a revolução não terminara ainda. O espiritismo levara-o à teosofia e da teosofia passara ao ocultismo, forma derradeira da iniciação esotérica a que se entregara." De certo modo, era "a intuição do mistério" que desde a adolescência inquietava o poeta.

Fernando Pessoa, Poeta do Mistério

João Alves das Neves
 
...Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em diversos graus de espiritualidade, subutilizando-se até se chegara um Ente Supremo, que presumivelmente criou este mundo. Pode ser que haja outros Entes, igualmente supremos, que hajam criado outros universos, e que esses universos coexistam com o nosso, interpenetradamente ou não...

                Assim explicava Fernando Pessoa - O Poeta do Mistério - o que entendia por Ocultismo, em carta de 14 de Janeiro de 1935 a Adolfo Casais Monteiro. Trata-se da curiosíssima carta sobre a gênese dos heterônimos (à qual outra se seguiu), mensagem que se situa muito para além da heteronímia.
               
               Tudo parece simples a partir do Credo na existência dos mundos superiores. No entanto, há que entender, desde já, à definição de vários passos ocultistas do poeta da Mensagem, considerando que são múltiplos os degraus que transmitem as mensagens. Não-espírita. Não-maçônico. Não simplesmente astrólogo. Não apenas Rosa-Cruz. Não. Tudo isso e muito mais. Desde sempre no percurso de 13 de junho de 1888 a 30 de novembro de 1935.
               
                Num estranhíssimo livro, A invasão dos Judeus, impresso em Lisboa no mês de Janeiro de 1935, o amigo do Poeta, Mário Saa (não confundir com Mário de Sá-Carneiro), biografou em cerca de 4 páginas o inventor dos heterônimos, começando por apontá-lo como "futurista e judeu", lembrando que o seu quinto avô, Sancho Pessoa, fôra "astrólogo, ocultista e psalmista" e que, preso pela Inquisição, esse antepassado tinha sido "condenado a confisco, por judeu militante, em 1706". Do lado paterno, não há que negar as origens, embora o Pai do Poeta não seguisse o culto judaico, enquanto a Mãe pertencia aos chamados cristãos-velhos, o que explicaria ter dado ao filho o nome de Fernando Antonio, em homenagem ao Santo Antonio de Lisboa (que morreu em Pádua), já que o santo e doutor da Igreja foi Fernando na vida laica a Antonio na religiosa.


                De qualquer modo, a biografia de Mário Saa contém curiosas informações, não somente por se tratar de provável primeira informação "ocultista" sobre o Poeta, mas também por haver sido redigida por um amigo que o conhecia bem de perto e publicada em vida do escritor plural. Traçando o perfil de Fernando Pessoa, dizia Mário Saa: "Nós o vemos fisionomicamente hebreu, com tendências astrológicas e ocultistas. (...) Lança-se e oculta-se; esconde-se e prepara novos lances; é um verdadeiro furta-fogo! Tudo isto se revela pelos seus numerosos pseudônimos - pelos que tem, e pelos que há de vir a ter, e... pelos que não se sabe que tem!..."


                 Prossegue o biógrafo com outros esclarecimentos que revelam estar bem ao par de certos mistérios do criador da heteronímia: "Além do seu verdadeiro nome, Fernando Pessoa, é ele Álvaro de Campos, (autor dum ultimatum que começa assim: 'Mandado de despejo aos mandarins da Europa! Fora!), Alberto Caeiro, Ricardo Reis, etc. Isto só, verdadeiramente podia lembrar a um indivíduo duma raça oculta, tal a judaica ou a chinesa, que são as que mais contribuem para as associações secretas, para a franco-maçonaria, por exemplo; são chamadas as raças femininas, por excelência. Ora esta multiplicidade de pseudônimos, a que ele chama multiplicidade de personalidades, é apenas, a mesma personalidade em diversas temperaturas". Etc. Etc.


                 Mário Saa, que foi poeta e ensaísta, tendo deixado largos traços nalguns caminhos ocultistas, analisa outros aspectos da obra pessoana então em florescimento por várias publicações literárias e cita a respeito Guillaume Apollinaire, assinalando que no francês e no português se encontram "bons exemplos de literatura idiche", admitindo, a propósito de Pessoa: "Contudo, ele assevera que, apesar de descendente de judeus, ele, individualmente, o não é!". Por fim, considera: "Fernando Pessoa, um dos poetas maiores da sua raça, é um inventivo e um expressionista analítico."